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16 de Dezembro de 2018 | 01:50

Grande noite do fado

Publicado a 22/01/2002

A Grande Noite do Fado é a mais antiga e a mais popular das iniciativas da Casa da Imprensa. Hoje apresentada em Lisboa e no Porto, tem sido a rampa de lançamento de alguns dos nomes mais sonantes do fado, sobressaindo entre as suas revelações fadistas como Camané, Esmeralda Amoedo, Maria Armanda e Maria Mota.


As comemorações do centenário do Coliseu de Lisboa abriram em 8 de Junho de 1990 e terminaram em 9 de Junho de 1991 com a Grande Noite do Fado de Lisboa. Este facto releva da grande popularidade conquistada pela mais antiga das iniciativas da Casa da Imprensa e do interesse, renovado pelos seus herdeiros, que sempre lhe dispensou o notável empresário Ricardo Covões.

Mas um mês antes desse 8 de Junho, a Grande Noite do Fado estava em risco de não se realizar, de a tradição se perder na voragem e nas vicissitudes do tempo. O então presidente da Casa da Imprensa, Manuel Gonçalves da Silva, convidou o jornalista Ângelo Granja a organizar o espectáculo, e este, separando competências, propôs o actor Francisco Nicholson para essa tarefa.

Foi um imenso desfile de artistas no palco de um Coliseu com enorme assistência, sobre a qual desceram dois mil balões e borboletas de papel, num ambiente de festa inusitado. Desfile de cantadores do fado, principalmente, mas também de outras áreas do espectáculo. E a presença de Madalena Iglésias, que propositadamente veio a Portugal, e no Coliseu se reencontrou com a sua rival Simone de Oliveira, as duas improvisando o «Ele e Ela», que Madalena levou ao Festival da Canção da Eurovisão. Mais ainda, entre o muito que houve: Rita Ribeiro e António Cruz numa cena de «What Happened to Madalena Iglésias?», um grande êxito da época, criado por Filipe La Féria.

Essa Grande Noite do Fado, integrada nas Festas da Cidade, como outras que lhe sucederam, e que celebrava também os 50 anos de carreira de Amália Rodrigues, ausente em Macau para as comemorações do 10 de Junho, deu oportunidade à Casa da Imprensa de entregar vários prémios, em que simbolizava o seu reconhecimento e apreço por artistas, empresários e entidades a quem devia apoio e desinteressada colaboração nesta iniciativa. Um deles, o Prémio da Imprensa de Solidariedade, foi conferido à Empresa Ricardo Covões, pelo respeito e gratidão da mutualidade dos jornalistas a essa figura tutelar de raro carácter e generoso coração, como sublinhava o programa.

No ano seguinte, encerrando as comemorações da efeméride, a Grande Noite do Fado levava Amália ao Coliseu após dez anos de ausência, celebrava o centenário de Alfredo Marceneiro e estreava a Grande Marcha de Lisboa/91, cantada por Alexandra. Num espectáculo que se prolongou por quase 12 horas, que seleccionou para o concurso de fadistas nada menos de 40 concorrentes, que apresentou outro êxito de Filipe La Féria, «Passa Por Mim no Rossio», com intervenções de Rita Ribeiro (na Maria Vitória) e São José Lapa (na Hermínia Silva), e dezenas de outros artistas, Amália foi, naturalmente, a maior das atracções, tendo estado em palco cerca de 50 minutos!

Nesse Junho de 1990, em que o Coliseu festejava o centenário, a Grande Noite do Fado completava 45 anos. De facto, tem-se como apurado que terá nascido em 1945, sob o nome de Grande Concurso de Fados, no Salão Salvaterra, na Rua da Barroca, ao Bairro Alto. Foi por vontade de Ricardo Covões que depois passou a realizar-se na histórica sala das Portas de Santo Antão e a intitular-se Grande Noite do Fado. E, com ressalva de duas ou três vezes em que se realizou no Pavilhão do Parque Eduardo VII, no Coliseu se mantém, dobrado já meio século, com a mesma autenticidade do que é verdadeiramente popular.

Se mais noite houvera mais fado se cantara, titulou, numa reportagem do «Diário de Notícias», João Botelho da Silva, jovem jornalista e escritor que a morte levou nas primícias do seu talento. Foi assim, na verdade, por muito longo tempo. A Grande Noite do Fado, que se fazia o grande acontecimento anual, prolongava-se madrugada adentro, num suceder quase ininterrupto de todo o género de artistas. Eram os cançonetistas em voga, os actores dos teatros do Parque Mayer representando quadros de revistas de sucesso, os grupos de baile e conjuntos musicais, os mais exímios dos executantes de guitarra e viola, e os cantadores de fado, prevalecendo e animando de entusiasmo desmedido as claques, as actuações dos concorrentes ao concurso, representando clubes e associações dos bairros da cidade.

Reproduzindo do Diário de Notícias, era a grande festa, dos rissóis e «tuperwares» às garrafas de tinto e cerveja e restantes víveres para sobreviver à maratona. E despontava o sol, começavam a circular os transportes públicos, quando toda aquela gente abandonava o Coliseu, formando-se ainda grupos para festejar os vencedores em plena rua ou para contestar as decisões resultantes da duração e da força dos aplausos! Que era deste modo, com cronometristas e tudo, que se apuravam os vencedores da Grande Noite do Fado.

É dever de justiça mencionar o nome do jornalista José Neves de Sousa, já falecido. Durante 16 anos, com entusiasmo e sentido do espectáculo, foi a ele que a Casa da Imprensa confiou a organização da grande noite de todos os fados. E porque era credor de reconhecimento, e de o seu nome sempre evocado na Grande Noite do Fado, foi instituído em 1991 o Prémio Neves de Sousa, para distinguir artistas e entidades que mais tenham contribuido para esta manifestação popular.

Nos últimos anos, as alterações verificadas nos hábitos e nos gostos do público, e na forma de os fruir, reduziram um pouco a dimensão da Grande Noite do Fado. Assim mesmo, a sala do Coliseu fica bem composta de público, e, apesar das restrições, não falta quem se faça acompanhar de cestos e sacos com merendas, nem quem ensaie o seu pé de dança nos corredores da plateia. A decisão das classificações por aplausos foi substituída, em 1998, sem sombra de protesto, e com o maior respeito, pela votação de um júri convidado pela Casa da Imprensa.

Revelaram-se na Grande Noite do Fado muitos dos seus melhores intérpretes, alguns deles com carreiras de êxito, como Esmeralda Amoedo (1953), Maria Armanda (1967), Camané e Maria Mota (1979). E participaram, dando brilho ao programa, grandes figuras da canção (Francisco José, Júlia Barroso, Artur Garcia, Tony de Matos, António Calvário, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos Paião, Paco Bandeira, Marco Paulo...), do teatro (Vasco Santana, João Villaret, Alma Flora, Humberto Madeira, Eugénio Salvador, Raul Solnado, Herman José, Henrique Viana...) e, naturalmente, do fado (Cecília do Carmo, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, João Braga, Carlos Zel, Fernando Maurício, Lenita Gentil, Alexandra, António Pinto Basto...).

Nos inícios de 90 foi ainda a Grande Noite do Fado recriada no Porto, onde a partir de 1995, com a abertura da delegação da Casa da Imprensa, se tornou regular, sempre no Coliseu do Porto, excepto uma vez, no Teatro Rivoli, com larga participação artística e expressiva adesão popular.

A lista que se segue, de vencedores das Grandes Noites do Fado de Lisboa e do Porto, revela insuficiências de registo das suas realizações. Mas, de qualquer modo, tão completa quanto possível, representa uma memória.

ANO DE 2001

Em Lisboa

Vencedores Juvenis:

Cátia Miranda (Associação Cultural O Fado)

João Carlos Miguel (Grupo Recreativo Cultural Onze Unidos)

Vencedores Séniores:

Olga Maria F. Villa Nova (Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense)

Paulo Miguel Silva Pedro (individual)

No Porto

Vencedores Juvenis:

Melanie Moreira dos Santos (individual)

Mikael Mendes Salgado (individual)

Vencedores Séniores:

Cátia Garcia (individual)

Ricardo Mesquita (individual)

ANO DE 2000

Em Lisboa

Vencedores Juvenis:

Marília Maria Pais (Grupo Sportivo Adicense)

Ângelo Braz Freire (Grupo Desportivo Mouraria)

Vencedores Séniores:

Ana Sofia Rodrigues Reis (Associação Cultural O Fado)

José António Matoso (Academia de Recreio Artístico)

No Porto

Vencedores Juvenis:

Mariline da Costa Cândido (individual)

Márcio José Grijó da Costa (individual)

Vencedores Séniores:

Susana Maria da Mota Teixeira Ribeiro (individual)

Diogo Ricardo Pereira Coutinho Rocha (Associação Cultural O Fado)

ANO DE 1999

Em Lisboa

Vencedores Juvenis:

Andreia Sofia A. Matias (Clube Artístico Comercial Torres Vedras)

Marco Alexandre P. Canudo (União Samorense ?)

Vencedores Séniores:

Ana Margarida Lamas (?) e Augusto (Academia de Recreio Artístico)

Marco Paulo (?) Rodrigues (individual)

No Porto

Vencedores Juvenis:

Cláudia Alexandra Santos Picado (individual)

Diogo M. Reis Clemente (Junta Freguesia Marvila)

Vencedores Séniores:

Patricia Mónica J. Fraga (União Desportiva da Sé)

Rui Jorge F. T. Simões (Associação Cultural O Fado)

ANO DE 1998

Em Lisboa

Vencedores Juvenis:

Milene Alexandra Noé Candeias (Futebol Clube Lisboa)

Marco André Rodigues de Oliveira (Grupo Sportivo Terras da Costa)

Vencedores Séniores:

Susana Cristina Pinto Casqueiro (Estefânia Atlético Clube)

Ricardo Alexandre Paulo Ribeiro (Vendedores de Jornais Futebol Clube)

No Porto

Vencedores Juvenis:

Andreia Patricia Almeida Ribeiro (individual)

André Filipe Sêco Pires (individual)

Vencedores Séniores:

Alexandra Maria P. Cardoso (Tuna Feminina Universidade Fernando Pessoa)

Filomeno Baltazar da Silva (União Desportiva da Sé)

ANO DE 1997

Em Lisboa

Vencedores Juvenis:

(nomes por apurar)

Vencedores Séniores:

(nomes por apurar)

No Porto

Vencedores Juvenis:

Filipa Carvalho Dias da Silva

Renato José da Silva Matos

Vencedores Séniores:

Deolinda Maria Pereira Bernardo

Mário Rui Cardoso Lino de Sousa

ANO DE 1996

Em Lisboa

Vencedores Juvenis:

Vânia Mafalda Costa Damas (individual)

Diogo Ricardo Pereira Coutinho da Rocha (individual)

Vencedores Séniores:

Liliana Andreia Carvalho da Costa Casal Rochão (individual)

Luis Miguel Rocha Ramos (Futebol Clube Lisboa)

No Porto

Vencedores Juvenis:

Susana da Conceição Pereira de Jesus

Gonçalo Victor Plácido Cordeiro

Vencedores Séniores:

Carla Manuel Fonseca Teles Moreira (Junta Freguesia de Paranhos)

Firminio Pereira ? (União Desportiva da Sé)

ANO DE 1995

Em Lisboa

Vencedores Juvenis:

Ana Margarida Mota Dias (individual)

João Pedro Franco Silva (Clube Artístico Comercial Torres Vedras)

Vencedores Séniores:

Ana Luisa Maurício Costa (Grupo Desportivo Mouraria)

Pedro Miguel Galveias (Clube Futebol Varejense)

No Porto

Vencedores Juvenis:

Joana Filipa Lopes Penedos Amendoeira

Sérgio Paulo Martins Nunes

Vencedores Séniores:

Liliana Antunes Fernandes

Mário Manuel Aleixo Santos Barbosa

ANO DE 1994

Tânia Maria Pataco (Associação Recreativos Marinhos)

Carlos Manuel Maia (Clube Desportivo Lisboa Águias)

ANO DE 1993

Ana Rato

João Paulo Félix

ANO DE 1992

Célia Grenho

Nuno Alexandre Rodrigues

ANO DE 1991

Jaime Dias

Ana Paula Santos Carvalho

ANO DE 1990

Mónica Severino (Comercial Torres Vedras)

Rogério Santos

ANO DE 1989

Silvia Filipa (Comercial Torres Vedras)

Alfredo Carvalho dos Santos Gaspar

ANO DE 1988

Maria Augusta Costa

Américo Sousa (Grupo Desportivo Mouraria)

ANO DE 1987

(nomes a apurar)

ANO DE 1986

Maria São Pedro Figueira (Grupo Desportivo Mouraria)

Vitor Manuel Marques Moreira (Invisual)

ANO DE 1985

Maria Fátima Fernandes Silva (Futebol Clube de Lisboa)

Natalino Gomes Jesus (Grupo Desportivo Mouraria)

ANO DE 1984

Maria Leonor Santos (Alcobaça)

Álvaro Augusto dos Santos (Grupo Desportivo da Graça)

ANO DE 1983

Fernando Jorge Luís Amaral

Carla Maria da Silva Costa

ANO DE 1982

Fernando Mega

Maria Helena Gonçalves Nunes

ANO DE 1981

Paulo Mendonça

Ruth Maria dos Santos

ANO DE 1980

Paulo Jorge

Celeste Branco

ANO DE 1979

Camané

Marina Mota

ANO DE 1973

Hermínio Silva

Edite Guerra

ANO DE 1971

António Dias

Maria Helena Santos Almeida

ANO DE 1971

Artur Batalha

CrIsálida Almeida

ANO DE 1969

José João Dimas Bagorro

Domingas Guedes da Cunha

ANO DE 1968

José Alves

Odete Figueiredo

ANO DE 1967

Joaquim Gomes

Helena de Sousa

ANO DE 1966

Jorge Marques

Felisberta Santos

ANO DE 1965

Maria Nazaré

ANO DE 1964

Armando de Miranda

Celly Santos

ANO DE 1963

Orémio Jesus Gonçalves

Maria de Fátima Afonso da Silva

ANO DE 1959

Armando Brandão

ANO DE 1953

Esmeralda Amoedo

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